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Testemunhos de Andarilhos
Extraído de: http://www.caminhodesantiago.com/rotas_brasileiras/passos_anchieta/clinete/
Maria Clinete caminhou pelos Passos de Anchieta e nos enviou o seu diário. Nele Clinete relata cada momento de emoção e conhecimento ao longo desta rota brasileira.
Finalmente, o avião decolou. Uma hora e meia
atrasado.
A visão esplendorosa desta cidade maravilhosa de São Sebastião do Rio de
Janeiro, logo fez esquecer as duas horas no apinhado aeroporto de Santos Dumont,
prenhe de executivos engravatados e atores globais, como de costume.
Lili e eu, vestidas para matar, ou para caminhar, com nossas roupas dry fit,
mochilas imensas, botas de escalada, chapéus, fomos a atração daquela manhã.
Procuramos esperar na lanchonete do andar de cima, lugar mais discreto, mas
ainda assim, com muitos executivos e um casal de namorados ardentes que
enfrentava o calor da mesa colada ao fogão para ter maior privacidade. As
pessoas nos olhavam, mas como estávamos no Rio, e carioca não dá muita bola
para esquisitices nem para personas, não se demoravam muito nesse olhar. Minha
amiga Olguinha apareceu, ia visitar a irmã em BH. E haja explicar a situação.
E na ida ao banheiro, encontro uma jovem já bem saída da adolescência, mas
suspirando como dentro dela ainda, por ter dado o telefone ao Luciano Szafir.
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Praia da Cerca
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A Lili começou logo o proselitismo de
Santiago – um jovem mineiro, Daniel, se interessou pra saber a origem daquilo
e logo se transformou em candidato a candidato a peregrino. Depois foi uma
senhora de uns 60 anos, com uma prótese de quadril e o sonho de andar até o
Apóstolo. Informações, AASCBrasil, sites, e-mails...
A paisagem era deslumbrante e agradecemos ao marido Gustavo, da Lili, a escolha
dos lugares e nos divertimos em identificar as praias, até Saquarema. Depois
ficou meio confuso e o pessoal de bordo despreparado para informar o que a gente
avistava da janela. Como é que se faz uma rota várias vezes, a baixa altitude
e não se reconhece o que está embaixo? Lembrei do meu saudoso amigo Paulo
Pinto. Por isso é que é ainda aeromoça....
Apareceram muitos prédios – Guarapari? Vila Velha? E finalmente o famoso
mosteiro da Penha. Tínhamos chegado. Eu surda, resultado da forte gripe que
ainda estava em atividade e se manifestava em espasmódicos acessos de tosse e
Lili, com o pé não muito católico, recém saído da imobilização
necessária para o controle de uma torção. Resumindo: duas pouco sensatas
peregrinas...
Angela Dellaprani Ribeiro, peregrina e escritora, esperava-nos com sua irmã e
flores rubras, feitas por ela própria, com o centro de bombom Serenata de Amor.
Fomos para uma praia já em Serra, literal norte, Manguinhos, com um visual de
pedras e ondas e areia de tirar o fôlego, comer uma autentica moqueca capixaba,
casquinhos de caranguejo, no Recanto do Pedrinho, preparando o corpo para seguir
os passos do atleta - apóstolo do Brasil. O carinho peregrino da Ângela se
acentuou no seu apartamento peregrino, com posters gigantes do Apóstolo Tiago,
do caminho francês, vieiras e cruzes de Santiago na decoração. Não
conseguimos esperar o dia seguinte e já fomos buscar a credencial na Catedral.
O pessoal da ABAPA – Associação Brasileira de Amigos dos Passos de Anchieta
- ONG organizadora da caminhada (www.abapa.org.br), ainda estava montando as
barracas de atendimento, e nós duas azucrinando para apanhar os documentos,
comprar camisetas, chaveiros e pins, e eu, um bastão de andarilho para auxiliar
na caminhada. Já ficamos para a missa e a Lili começou logo a chorar tão logo
o padre disse as primeiras palavras, com uma voz tonitruante, que não combinava
em nada com seu jeito pequeno e acanhado de recém ordenado.
Arrumadas as mochilas, perde tudo e acha tudo, conversas mil com a Angela e sua
gentil secretaria Ana, que depois nos deixou junto a uma deliciosa sopa, um
bilhete de estímulo; cutucadas nas andarilhas desistentes Valéria, Tilara e
Marisa, pela Internet, fomos pra cama, tentar dormir, o que realmente não foi
muito fácil com a excitação do amanhã e os meus acessos de tosse.
Esta Caminhada revive o trajeto histórico feito pelo padre Anchieta no século
XVI, quando ele saía da Vila de Rerigitba, hoje a cidade de Anchieta, a 105 km
e ia até o Colégio São Tiago, hoje o Palácio Anchieta, na Vila de Vitória,
a cada 15 dias. É feita de modo a terminar no dia 9, aniversário da morte do
jesuíta, hoje beato, o primeiro santo “brasileiro”, entre aspas, pois, como
Inácio de Loyola, era espanhol de nascimento, de Tenerife, nas Ilhas Canárias.
O trajeto, originalmente feito em 3 dias, é realizado hoje em 4 dias e segue a
orla marítima, desvendando paisagens praianas de areias ora brancas, ora
amareladas e águas de um azul celeste, celestial mesmo. É todo marcado por
pés e setas azuis, muito bem sinalizado e cuidado. Este ano foi feita a sexta
edição.
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Diário
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| 1º dia: | Vitória até Vila Velha ( Barra do Jucu) - 25 Km |
| 2º dia: | Barra do Jucu a Setiba - 28 Km |
| 3º dia: | De Setiba a Meaípe - 24 Km |
| 4º dia: | Meaípe a Anchieta - 23 Km |
Clinete Lacativa
Rio de Janeiro, Junho de 2003
Enviado por Maria Clinete