Matéria extraída de http://an.uol.com.br/2003/jun/19/0tur.htm (AN Turismo)

Areia Preta, Anchieta e Guarapari (do alto para baixo):
paisagem compensa esforço
Fotos: Bruna Lage / Divulgação
Vitória - O final da sexta edição da caminhada Os Passos de Anchieta, dia 8 de
junho, foi marcado pelo cansaço e pela alegria de completar o percurso. Os
1.500 andarilhos que participaram do evento percorreram 100 quilômetros entre a
catedral de Vitória e o santuário de Anchieta em quatro dias.
No último dia, os andarilhos foram recepcionados com fogos de artifício,
apresentação do Boi Pintadinho, Muqui e muitas frutas. A Associação dos
Amigos dos Passos de Anchieta (Abapa) entregou o certificado para os
participantes, que, orgulhosos, fizeram questão de registrar o momento com
fotos.
Crianças, jovens, adultos e idosos percorreram a trilha que o beato José de
Anchieta fazia durante os últimos anos de sua vida. A andarilha Davina
Pelissari França, de 75 anos, percorre a trilha todos os anos. "Este é um
evento muito importante, pois, além de fazer bem à saúde, é uma verdadeira
terapia devido às belas paisagens do caminho", ressaltou.
O estudante Renato Pimentel, de 14 anos, fez o percurso de bicicleta, em
companhia da irmã e da mãe. "Todos os anos participo", explicou o
garoto, cuja mãe, Desirré Pimentel, participou com um grupo de 20 pessoas do
Banestes (Banco do Estado do Espírito Santo).
Participaram da caminhada coletiva oficial deste ano grupos de andarilhos de
diferentes lugares do País, como Santa Catarina, São Paulo, Minas Gerais e até
do exterior - Estados Unidos, Bélgica e Dinamarca.
A jornalista e artista plástica catarinense Andréa Grossenbacher participou
com um grupo de Joinville que sempre está presente em caminhadas coletivas,
como o Caminho da Luz, em Minas Gerais. No ano passado, o grupo esteve em Machu
Picchu, no Peru. "É o primeiro ano que participamos de Os Passos de
Anchieta e estamos impressionados com a organização. Vamos voltar todos os
anos", garantiu.
Já a americana Emma Rueter está no Espírito Santo desde o ano passado para
pesquisar a relação entre os andarilhos e a romaria no Estado. "Adorei o
evento. As informações que colhi serão muito úteis para a minha tese de Phd",
afirmou.
Todo percurso é marcado por aspectos ecológicos, históricos, religiosos e
culturais. Essa é a receita para atrair tanta gente dos mais diversos lugares.
A caminhada faz o andarilho reviver uma história de solidariedade, superação
de obstáculos físicos e interiores, amizade e satisfação.
O que a auxiliar de serviços gerais Rosana Jacobém Pinheiro mais gostou na
caminhada foi o espírito de solidariedade e de companheirismo entre as pessoas.
"Este ano tive que vir sozinha, pois minhas amigas estavam trabalhando, mas
as amizades que fiz no caminho valeram a pena", observou.
Um roteiro
de fé repleto de oásis
Seguindo sempre pelo litoral, a rota foi iniciada pelas praias urbanas de
Vila Velha: Praia da Costa, Itapoã e Itaparica, com suas dezenas de quiosques e
modernos edifícios da orla, chegando a Barra do Jucu, conhecida como paraíso
do surfe e das bandas de congo.
Os andarilhos ficaram encantados com a característica bucólica da cidade e a
banda de congo Mestre Honório, que fez a recepção no primeiro dia, que se
passou quase todo em área urbana. Já no segundo dia os andarilhos saíram da
Barra do Jucu, passando pela praia de Ponta da Fruta, que tem uma grande lagoa
de água doce, e logo depois entraram em uma área protegida pelo Parque
Estadual Paulo César Vinha.
Apesar desse trecho ser considerado um dos mais bonitos, é também um dos mais
cansativos, pois é feito praticamente todo na areia. A segunda parada para
pernoite foi feita em Setiba. A região é conhecida como point para praticantes
de surfe e canoagem em onda.
Durante todo o percurso, a Abapa montou pontos de apoio aos andarilhos em
intervalos constantes para fornecer água, frutas e medicação para as caimbras,
bolhas e torções que inevitavelmente acabam acometendo alguns participantes.
Apesar de todos os percalços, os andarilhos se sentiram recompensados no
terceiro dia ao passar pela região conhecida por Aldeia e pelas Três Praias,
em Guarapari, onde a natureza mostra suas enseadas caprichosamente desenhadas e
emolduradas com pedras e ondas mansas.
Meaípe foi o terceiro ponto de parada do roteiro. Apesar de lá se encontrarem
as mais agitadas boates do Estado, quase ninguém se arriscou a dar uma
esticada. A maioria quis guardar forças para encarar a última etapa da
caminhada, pois o aquecimento coletivo começou às 6h30. A última etapa, de 23
quilômetros, foi um resumo de todas as anteriores, pois alternou trechos onde
se caminha em praias desertas, rodovias e estradinhas de terra. Em uma dessas
estradinhas, os andarilhos foram saudados com palmas dos populares.
Na beira das praias foram encontrados poços naturais de água potável, que
alguns dizem terem sido abertos pelo Padre Anchieta ainda durante suas
caminhadas para saciar a sede dele e dos índios que constantemente o
acompanhavam.
Ubu, pequena vila onde
o beato teria caído do esquife
Ubu, uma pequena vila à beira de uma extensa praia de águas mansas, recebeu
este nome quando Anchieta ali passou pela última vez. Carregado por uma multidão
de cerca de 3 mil índios, seu esquife tombou, o que fez os índios exclamarem
"Aba Ubu" ("O padre caiu"). Os andarilhos puderam conhecer a
bela vila que um dia foi só de pescadores.
O último oásis do caminho fica na praia de Castelhanos, onde muitos esperaram
pelos que ficaram para trás para poderem percorrer os últimos quilômetros e
subirem as escadarias do santuário juntos.
O grande prêmio da caminhada foi a visão da escadaria que leva ao santuário
de Anchieta, uma construção jesuítica de 1597, erguida pelo beato em seu último
ano de vida com a ajuda dos índios tupis. Os andarilhos compartilharam uma
grande mesa de frutas de boas vindas e também muita amizade, superação de
obstáculos físicos e satisfação.
4 dias de percurso
3.000 participantes
5 toneladas de frutas consumidas
3.000 atendimentos médicos
120.000 copos de água distribuídos